sexta-feira, 15 de junho de 2012


Pressupostos Psicológicos da Idade Média

Compreender a historia, torna-se uma tarefa árdua e ineficiente se primeiro não fizermos um trabalho de busca pela compreensão do homem como agente da história, e isto não significa que tal compreensão se fará de forma totalitária, haja visto que aquilo que compreendemos como historia do homem, representa apenas 1 por cento de todo o seu período de experiências na luta pela vida e domesticação da natureza que o rodeia, devemos necessariamente entender que a análise de todos os registros disponíveis, de todas as lendas ou mitos que se construíram ao longo de todo este vasto período, não terá para nosso estudo, o significado de entendimento se não percebermos que o indivíduo porta consigo valores psicossociais altamente relevantes na construção de sua história, por isto é preciso buscar, ainda que se mostre tarefa árdua, conhecer as forças motivadoras que criaram comportamentos e acatamentos individuais e coletivos, tais como os processos de educação da idade média, tão envoltos em mistica poderosa quanto em uma busca pela acomodação de forças psíquicas fundantes do gênero humano e sua dinâmica psicossocial.
Na obra Psicologia de Grupo, Freud descreve a psicologia do grupo como um fator externo a psicologia individual, porem constituída de vários indivíduos e suas próprias construções psicológicas, nesta direção, postula o autor, o indivíduo quando mergulha no grupo sobre uma influencia do todo que é o grupo e tem seus comportamentos sociais alterados em função de um corpo psicológico comum do próprio grupo. Se analisarmos a história da evolução social do gênero humano, perceberemos que desde os momentos primeiros, que para nosso objeto de estudo colocaremos nas proximidades da revolução neolítica, entenderemos muitos dos processos que se deram na construção da pedagogia da educação no período da idade média. Percebamos que o homem em sua necessidade de sobrevivência, era nesta época, nômade e vivia primordialmente da caça, suas atividades segundo, J.I.Parker em sua obra O Mundo do AT, estavam estruturadas de maneira que ele pudesse viver em busca dos rebanhos e das manadas em seus processos migratórios, todo o bando compartilhava suas estruturas destinadas a caça durante gerações e isto criava um comportamento coletivo voltado para a vida nômade. Porem em um determinado momento, este homem descobriu a agricultura e começou um processo de assentamento na terra, ele plantava e domesticava animais, alterando seu comportamento social. Começam a aparecer neste cenário as organizações religiosas, este homem que convive com as incertezas da semente plantada, entregue as vontades de uma natureza desconhecida e imprevisível busca no desconhecido misterioso, respostas para suas inquietações.

Para J.I.Parcker,
Os estados religiosos arcaicos tiveram início como comunidades agrícolas que possuíam seus próprios rituais religiosos. Aos poucos, o culto local e seus oficiais iam assumindo o controle da aldeia. A comunidade inteira se consagrava ao deus do ritual, e logo esse culto ou ritual praticamente se assenhoreava da comunidade. Adoravam-se deuses e deusas agrícolas. Seus rituais seguiam o ciclo agrícola anual. 1   (PACKER,2002)

Formava-se no homem uma estrutura psicológica religiosa que abarcava toda a comunidade, influenciando e sendo influenciados uns pelos outros dentro da psicologia do grupo. Com os estados posteriores da psicologia da religião até o período da idade média, sagrado e profano não existia, e a divindade estava presente em todos os segmentos da vida e era a estrutura psicológica religiosa que impulsionava o indivíduo através de seus processos psíquicos, herdados e construídos ao longo do tempo, para o cotidiano de cada um e da sociedade na compreensão e dominação das forças da natureza, que pareciam conspirar contra a existência humana nos seus momentos de crise diante das intempéries e moléstias naturais de cada época.
Estes processos de organização e formação da psicologia de um povo, ou até mesmo de uma época tornam todos os indivíduos iguais em um determinado ponto de sua formação, estas forças libidinais, segundo o conceito Freudiano, estão escondidas em estruturas mentais tão profundas que nem sempre o indivíduo tem conhecimento que as possui, nestes termos,generais e soldados, senhores e vassalos, reis e súditos apresentam um determinado sistema de valores que lhes são comuns. O que queremos dizer com isto é que, embora os interesses políticos e econômicos sempre se mostraram presentes nos grandes eventos da sociedade medieval, nem tudo se pode atribuir a estas forças motoras, mas muitas vezes, opressores e oprimidos se moviam impulsionados por um mesmo sistema de crenças e verdades construídos ao longo de milênios e que se arraigaram nas estruturas psicossociais de uma mesma civilização. Desta forma, sistemas foram construídos, dogmas foram forjados, símbolos foram criados, contratos foram firmados na difícil tarefa de negociar com os deuses de cada época, através da troca da obediência pela segurança e subsistência da espécie. Nestes mesmos termos se construiriam os caminhos da intelectualidade e da educação.








REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS

FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira vol XVIII. Rio de Janeiro, 1996:Imago. p. 81-97.

PACKER, James I, TENNEY, Merryll G, JR,Willian Write. O mundo do Antigo testamento. São Paulo 2002:Vida

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Idade Média : nascimento do ocidente. 2. ed. São Paulo : Brasiliense, 2001.
1 PACKER, James I, TENNEY, Merryll G, JR,Willian Write. O mundo do Antigo testamento. São Paulo 2002:Vida

segunda-feira, 7 de maio de 2012



DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO



BRAKEMEIER, Gottfried. Diálogo inter- religioso - Macroecumenismo?. In: ________. Preservando a unidade do espírito no vínculo da paz. São Paulo: ASTE, 2004. Cap. 14, p. 113-122.

Abordando aspectos fundamentais do diálogo inter-religioso o autor inicia chamando a atenção para que se construa um ecumenismo que aponte para unidade, não somente de um determinado credo, mas sim para a unidade da espécie humana, aquela que Deus criou amou como um todo. Citando H Kung, ele aponta para a urgente ampliação da ecumene para uma “... nova constelação mundial, policêntrica, transcultural e multireligiosa...”, para fundamentar sua posição o autor argumenta ainda com as terríveis guerras religiosas e os fanatismos que uma sociedade globalizada enfrenta. Segundo ele a religião, nesta perspectiva potencializa ao invés de debelar a violência. Seguindo o pensamento daqueles que afirmam que ecumenismo e diálogo inter-religioso são coisas distintas, o primeiro seria instrumento de ação para atuar dentro do âmbito eclesiástico excluindo o mundo não cristão. Seria ele nestas bases um esforço na busca da unidade na igreja e não a busca da unidade da humanidade. Resguardada a conotação teológica do ecumenismo, entende se que a ecumene se relaciona com a criação, o mundo que é obra de Deus e objeto de seu imenso e incalculável amor, invoca desta forma, a dignidade que toda pessoa está revestida na condição de criatura de Deus. Não se pode desconsiderar que o ecumenismo fora do cristianismo também atende aos propósitos de Deus, pois  considera  que o evangelho é universal e a ecumene traz em sua constituição e discurso o convívio pela paz. É necessário esforço para alcançar consensos inter-religiosos. Diante do desafio de confrontar o diferente, torna-se fundamental o desenvolvimento da teologia das religiões, pontua o autor, com o objetivo de superar grandes desafios da atualidade, tais como:
1.      Sem paz entre as religiões não há paz entre os povos
2.      O tempo do absolutismo foi superado, a sociedade plural rejeita o autoritarismo
3.        As ameaças que o mundo enfrenta hoje exigem esforço conjunto de todas as nações e religiões, para resolver os problemas da humanidade.
Diante das urgências praticas, não podemos ignorar os grandes desafios teológicos da questão, como podemos encarar do ponto de vista salvífico, as religiões que rejeitam a revelação de Deus em Jesus Cristo? Podemos destacar três posturas teológicas a esse respeito:
1.      O exclusivismo. Com uma perspectiva eclesiocêntrica diz que somente através da fé no nome de Jesus Cristo pode haver salvação, esta exclui outros discursos e tende ao confronto.
2.      O inclusivismo.  Com uma perspectiva Cristocêntrica, afirma que somente através de Jesus Cristo pode haver salvação. Admite porem que Cristo atua alem das fronteiras da igreja. Tende a harmonização.
3.      O Pluralismo. Não nega a singularidade de Cristo, nem sua importância na salvação cristã, porem nega-lhe a exclusividade. Com uma perspectiva teocêntrica acredita que outras religiões também levam a Deus. Tende a posição de parceria.
Enfrentando problemas como a relativização de Jesus Cristo e contrariando o testemunho bíblico, afirma o autor, nenhuma das três respostas acima oferece solução. Para avançar nestas questões devemos assumir que toda religião é exclusivista, tirar isto delas é quebrar sua espinha dorsal, tanto do cristianismo como de qualquer outra religião, relativizar sua verdade é destruí-la, assim, o diálogo inter-religioso não deve exigir das religiões a renúncia a exclusividade e sim a disposição para a aprendizagem. Espera se na parceria religiosa a capacidade de ouvir o outro e compreender suas convicções. Para buscar uma solução para os problemas teológicos abordados acima, o autor propões uma visão do pluralismo com o inclusivismo, ao que ele chamou de exclusivismo aberto, que seria:
1.      Toda religião contem sua verdade. Salvam de alguma coisa e sendo salvação um termo relativo o diálogo inter-religioso deveria começar pelo correto diagnostico dos problemas da humanidade, não pela terapia. A salvação em qualquer religião só será verdadeira se o diagnostico for honesto e verdadeiro.
2.      Todas as religiões são ambíguas. Assim como possuem seus erros, também possuem suas riquezas, inclusive a religião cristã. Todas as religiões têm suas singularidades e seria pensamento simplista assumir que elas são lâmpadas diferentes irradiando a mesma luz, embora a realidade seja a mesma para todos e Deus seja o único, a percepção de cada uma diverge da outra, o que resulta em cultos, credos e condutas diferentes. Não se pode também confundir ecumenismo com sincretismo. Em todas as religiões coexistem o joio e o trigo fazendo-se necessário não confundir um com o outro.
3.      As religiões necessitam de avaliação crítica. Desde que pretendam socorrer, as religiões devem se comprometer com causas salvacionistas, mediante parâmetros, como se faz a paz e qual o seu caminho são perguntas que todas as religiões devem responder. As religiões não devem se preocupar só com a salvação do indivíduo, mas também com o bem estar da sociedade e do mundo, o meio ambiente e fatores correlatos. Isto deve ser uma responsabilidade comum das religiões.
4.      Tira-se o foco do pecado original das religiões, o que importa agora é o discurso que lhe dá fundamento, o discurso dos fieis não devem ficar aquém dos seus propósitos originários, para atender a interesses alheios. O que se discute é a proposta original, normativa da religião e não os seus desvios.
5.      Para a fé cristã é necessário distinguir entre Cristo e o cristianismo, por ser este um fenômeno complexo que sofre influência de vários fatores. Algo equivalente deve ser encontrado para as outras religiões. No diálogo inter-religioso o importante é Cristo, antes da manifestação histórica, cultural e institucional da fé que nele tem origem.
CONCLUSÃO¹
O diálogo inter-religioso deve ser o caminho a ser percorrido pela humanidade, no sentido de encontrar uma maneira de trabalhar no nível  coletivo os grandes males que afetam nossa era, neste processo precisamos ter ciência de que diferenças de crença e/ou preferências devem diluir-se no todo que é a humanidade, tendo em vista o projeto salvífico de Deus para toda a sua criação. Se o homem assumir para si a responsabilidade que lhe foi delegada nesta mesma criação, encontrará nas religiões, um poderoso instrumento de integração com objetivo sublime de debelar o grande inimigo que é a autodestruição. Sendo o homem um ser naturalmente gregário, o isolamento perde sua condição natural  na construção da mente humana e levando-se em conta que todo radicalismo religioso, passa pelo processo de separação com base na exclusão do outro, forçosamente teremos que admitir que isolar-se foge a natureza da criação humana e portando contraria o plano macro de salvação. Diálogo inter-religioso pode contribuir com o homem na medida em que buscar potencializar a capacidade que cada um tem de promover o encontro de si mesmo com o Criador, independente de sua contextualização histórica, geográfica ou psicológica. Nós já sabemos que o rito que funciona para uns, pode não funcionar para outros, o que não impossibilita que todos possam encontrar o Criador que se manifesta na estrutura intima de cada um, com ou sem religiosidade, porque Deus transcende a capacidade[1] humana.



[1]Conclusão inserida no trabalho atendendo a solicitação do orientador mestre em teologia Carlos Cesar, para ratificar  o entendimento do tema pesquisado